sábado, 19 de dezembro de 2009

INTRODUÇÃO

Este trabalho preTende mostrar a força do telejornalismo na veiculação e resolução de problemas nas comunidades. Mostra como a comunidade utiliza este meio de comunicação como um elo com os órgãos competentes e espera que eles sejam resolvidos.
Foram utilizadas várias fontes de pesquisa, como livros, sites e o banco de pautas da TV Pajuçara. Destaque para os sites de notícias, fundamentais para obtenção de dados atualizados sobre a realidade sócio-econômica do país. Também foram analisadas reportagens de jornalismo comunitário, que foram ao ar no Jornal da Pajuçara Noite, bem como a repercussão que elas causaram. Como suporte de pesquisa, foi utilizada a seção de vídeos do portal Tudo Na Hora.
No primeiro capítulo, a pesquisa explica, de forma breve, como a televisão influencia no cotidiano da massa, apontando o aumento no número de emissoras e redes de televisão no Brasil. Em seguida, mostra o crescimento constante da venda de televisores no Brasil. Termina o capítulo mostrando também o crescente número de usuários de internet no Brasil.
O segundo capítulo traz uma explicação do significado do Jornalismo Comunitário. Em seguida, o trabalho traça as diferenças entre este segmento e o Sensacionalismo. O capítulo termina com uma explanação à cerca dos limites da liberdade de expressão jornalística.
No terceiro capítulo, a interatividade aparece como um meio mais rápido, moderno e atual de ligação entre emissora e audiência. Mostra como a interatividade saiu do rádio e encontrou espaço na televisão, como ela se dá atualmente e como será o futuro da interatividade com o advento da TV Digital, que já é uma realidade em parte do país.
No último capítulo, a pesquisa traz exemplos de casos de denúncias: O modelo de denúncia clássico, a denúncia que não deu certo, o uso do personagem, a repercussão causada por uma denúncia e um exemplo sobre como uma denúncia pode puxar outra.

1 - TELEVISÃO – VEÍCULO DE MASSA

A televisão no Brasil é considerada um fenômeno cultural importante por muitos estudiosos, se não o mais importante, da segunda metade do século XX. Chegando no Brasil em 1950, com Assis Chateaubriand, a TV Tupi foi a primeira emissora da América Latina, começando em São Paulo.
No início dos anos 90, segundo o livro Um Perfil da TV Brasileira, de Sérgio Mattos (Bahia: A TARDE, 1990), a televisão brasileira contava com 183 emissoras. Hoje, o Brasil conta com 5 grandes redes (Globo, SBT, Record, Bandeirantes e RedeTV!) e muitas centenas de emissoras a mais, como dizem os pesquisadores Sérgio Capparelli e Venício A. de Lima em Comunicação & Televisão: Desafios da Pós Globalização (São Paulo: Hacker, 2004).
Em 2002, a Globo tinha 113 emissoras próprias, associadas ou afiliadas, cobrindo 98,91% dos domicílios com televisão no país, com uma audiência de 51% das 18h às 24h e uma participação de 78% no bolo da publicidade; o segundo grupo, o SBT, tinha também 113 emissoras próprias, associadas ou afiliadas, cobrindo 97, 18% dos domicílios com televisão no país, com uma audiência de 25% das 18h às 24h, sem dados relativos à participação na publicidade; os grupos restantes (Bandeirantes, Record, RedeTV!, CNT, Gazeta e outras) participam na audiência das 18h às 24h sempre abaixo de 6%. (2004, p. 84).


1.1 A venda de televisores em números

Segundo pesquisa divulgada em 2007, Programa Nacional de Conservação de Energia Elétrica (Procel), da Eletrobrás, 97,1% das casas brasileiras têm, pelo menos, uma televisão. O número, segundo o Estudo, é maior que o de geladeiras, por exemplo. A pesquisa foi realizada entre dezembro de 2004 e julho de 2006, em 18 Estados e 21 concessionárias, que representam 92% do mercado.
Outra pesquisa, realizada em 2009, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que fazem parte da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), mostra um percentual um pouco mais baixo que a da Eletrobrás, em números de televisores. Segundo o Estudo, 95,1% dos domicílios possuíam televisores. A mesma pesquisa apontou que, no Nordeste, existem mais lares com computador do que com freezer e máquina de lavar roupas.
Mesmo com essa pequena diferença entre os índices, é notória a presença da televisão na sociedade. Quem comemora é o setor industrial, que sente o crescimento do consumo em números. Em 2008, o mercado vendeu 2,5 milhões de TVs de Plasma e LCD, segundo a Agência de notícias Estado. O volume é mais que o dobro do ano anterior.
A queda nos preços dos aparelhos mais sofisticados provocou uma redução nas vendas dos televisores convencionais, que ainda dominam o mercado. Da venda projetada de 9,5 milhões de TVs este ano, 7 milhões serão de aparelhos convencionais. No ano passado, as vendas de TV convencional atingiram 9 milhões de unidades. (2008).


Mas a venda de computadores também cresceu. Pesquisa realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostrou que a venda destas máquinas tiveram aumento de 16% em 2008, com relação ao ano anterior. São 60 milhões de computadores em todo o Brasil. Até o ano 2012, a expectativa da FGV é de que exista um computador para cada dois habitantes.
Mas o IBGE mostra que, apesar do crescimento acelerado, o número de computadores ainda é pequeno, principalmente na região Nordeste. Segundo o Pnad 2008, apenar 3 em cada 10 domicílios contam com um computador. Desse total, 56% está na Região Sudeste.

1.2 Televisão na Era da Internet

Muito se fala que a televisão, em breve, perderá lugar para a Internet. Segundo uma pesquisa divulgada em Novembro de 2009, pela agência de notícias Reuters e feita pelo grupo Synovate, de marketing, apontou que a internet supera a televisão como mídia preferida em boa parte do mundo, inclusive no Brasil. Os números do crescimento não deixam dúvidas de que a web está crescendo em ritmo acelerado. Segundo o Pnad, em 2007, 11,1 milhões de pessoas tinham acesso à rede. O número saltou para 13,7 milhões no ano seguinte, representando um crescimento de 3,28%.
Já o Instituto Brasileiro de Opinião Pública e Estatística (Ibope) apontou, em Agosto de 2009, que 64,8 milhões de pessoas acessavam internet de casa e do trabalho. A pesquisa diz ainda que o tempo médio do brasileiro conectado, por mês, é de 48 horas e 26 minutos. Ainda de acordo com o estudo, os números colocam o Brasil como líder mundial em tempo de acesso à internet.
Apesar do aumento significativo de usuários de internet, é de se considerar que o Brasil é um país de um grande número de analfabetos. Segundo o estudo Mapa do Analfabetismo no Brasil, publicado em 2003, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), 16 milhões de brasileiros são analfabetos, seguindo os padrões do IBGE para classificar alguém assim. Para o Instituto, são consideradas analfabetas as pessoas que não são capazes de ler e escrever um bilhete simples no idioma que fala.
No entanto, muito se fala em analfabeto funcional. São aqueles que não concluíram, pelo menos, quatro séries de estudos escolares. Usando este critério, o número de brasileiros analfabetos é quase o dobro: 30 milhões, com idades acima dos 15 anos
Curiosamente, observa-se também que a maioria dos analfabetos absolutos, de acordo com a pesquisa do Inep, está em alguns dos Estados brasileiros mais desenvolvidos economicamente.
Do total de analfabetos absolutos entre os Estados, constata-se que cinco deles (Bahia, São Paulo, Minas Gerais, Pernambuco e Ceará) respondem por cerca da metade dos analfabetos do País (...) Em termos relativos, as maiores taxas de analfabetismo estão em municípios localizados nas Regiões Norte e Nordeste. Esse quadro é preocupante em função das baixas condições socioeconômicas dessas localidades que, diante de suas características, promovem a manutenção dessa situação de exclusão social. (2003, p. 6).


Tem-se, aí, a grande vantagem da televisão sobre a internet: o alcance. Por ser um veículo que utiliza, principalmente, a linguagem visual e falada, atinge a todas as camadas sociais, principalmente àquela formada por analfabetos. Vera Íris Paternostro identificou essa vantagem no livro O Texto Na TV, quando diz que este veículo “independe do conhecimento de um idioma ou da escrita por parte do receptor” (1999, p.64).

2 – JORNALISMO COMUNITÁRIO

Os canais de televisão são concessões públicas. Por lei, este meio de comunicação tem obrigação de prestar serviços à sociedade. Um dos principais meios de prestação de serviço é o telejornalismo. Segundo José Afonso da Silva, a função social destes veículos de comunicação, enquanto concessão pública está em “exprimir às autoridades constituídas o pensamento e a vontade popular, colocando-se quase como um quarto poder" (1989, p. 219).
O poder atribuído ao veículo o torna importante na prestação de serviços à comunidade e, por isso, é comum presenciar uma prática usual do telejornalismo, que consiste em identificar e veicular denúncias feitas por um grupo social. Tal modalidade ficou denominada como Jornalismo Comunitário.
Em Teoria do Jornalismo (2005, p. 184) Felipe Pena diz que este segmento jornalístico “Atende às demandas da cidadania e serve como instrumento de mobilização social”. Ou seja, um compromisso não só com o fato, mas com a sociedade.
No entanto, a função do jornalismo comunitário não termina aí. Mais que o ato de veicular as denúncias de moradores ou autoridades, existe a necessidade de cobrar providências de órgãos responsáveis. Para tanto, é importante ater-se aos prazos e pressionar para que eles sejam cumpridos.
Os telejornais locais, principalmente, adotam este tipo de prática e tentam, cada dia mais, enxergar os problemas da população com o olhar de quem vive aquela realidade. É comum encontrar em manuais de telejornalismo, principalmente nos regionais, fragmentos parecidos como diz o Manual de Telejornalismo Regional da Rede Record, coordenado pelo diretor do jornalismo da emissora, Douglas Tavolaro:

É imprescindível que o telejornal trate dos problemas e das soluções (reivindicadas pelos moradores ou apresentadas pelas autoridades) nas áreas de educação, segurança, trabalho, saúde, habitação, saneamento, transportes, lazer, esportes e cultura. (2006, p. 7).


A Rede Globo de Televisão adota este segmento jornalístico nos telejornais locais que vão ao ar por volta do meio dia. São os chamados Praça TV 1ª Edição. Este formato é recente, vem de 1998, quando a emissora reforçou a prática do jornalismo comunitário, segundo o site Memória Globo.
A TV Globo já tinha uma tradição de jornalismo comunitário que vinha desde 1966, quando cobriu as enchentes no Rio de Janeiro. Naquela época, a emissora mostrou sua preocupação em relação às questões da comunidade, valorizando o papel do jornalismo na prestação de serviços. Na década de 1970, foi criado o Bom Dia São Paulo e, no início da década de 1980, outros programas especialmente voltados para os problemas locais: o Globo Cidade e os Praças-TV (RJ-TV, SP-TV, NE-TV, MG-TV e DF-TV). Mas, com a chegada de Evandro Carlos de Andrade à direção da CGJ, essa tendência foi reforçada. A grande novidade foi o formato dos noticiários, que passaram a ser mais profundos nas investigações e mais incisivos nas denúncias e nas cobranças às autoridades públicas. (2009).


Jornalismo Comunitário dá notoriedade à emissora e ao programa perante o grande público. Mas, mais do que pontos de audiência, o jornalismo comunitário procura criar laços de cumplicidade com o telespectador, já que as comunidades se reconhecem naquelas pessoas da televisão, na matéria veiculada.
Este braço do jornalismo é a contramão do monólogo televisivo, tão criticado pelo jornalista Eugênio Bucci em artigo publicado no site da ONG TVer:
Não há um outro veículo que a conteste, ou sequer que a relativize para o público mais amplo, Ela (a televisão) dá a primeira e a última palavra e, mais que isso, a primeira e a última imagem sobre todos os assuntos. Nesse monólogo audiovisual, o telespectador é o último a ser consultado e o primeiro a ser ofendido, desrespeitado, ultrajado. (...) Quando falo em direitos do telespectador estou falando, para começar, em deixar de pensá-lo e de tratá-lo como se ele fosse um receptor passivo. Estou falando em pensá-lo como um cidadão, extraindo daí as conseqüências que trarão impactos na tela da TV. Não é difícil ver que, na prática, o telespectador é ignorado nesse sentido.


2.1 Jornalismo Comunitário x Jornalismo Sensacionalista

O jornalismo Comunitário não trata de explorar a desgraça alheia de um cidadão isolado. As reportagens tratam de problemas que influenciam no cotidiano de várias pessoas ao mesmo tempo. É a notícia pela relevância à comunidade.
Exemplos não faltam nos telejornais locais. Em julho de 2009, o Jornal da Pajuçara Noite, da TV Pajuçara, mostrou que os novos moradores do Conjunto Cidade Sorriso enfrentavam um problema já previsto: A dificuldade de matricular as crianças em escolas públicas da região do Benedito Bentes. Os moradores, vindos de comunidades carentes da orla lagunar e da Cidade de Lona, no conjunto Eustáquio Gomes, não tinham como pagar transporte para que as crianças fossem até a escola, tampouco conseguiram transferir a matrícula dos filhos para instituições do bairro. Como resultado, os pais corriam o risco de perder o benefício do programa Bolsa Família, do governo Federal, que, na maioria dos casos, é a principal fonte de renda da casa. Depois da reportagem veiculada, a prefeitura conseguiu ônibus para transportar as crianças até as instituições de ensino e fazer o trajeto de volta para casa. Os pais não perderam o benefício.
Outro exemplo bem sucedido no quesito Jornalismo Comunitário, na TV Pajuçara, foi o fechamento do Posto de Saúde da Grota do Arroz, também em julho. O local estava sem condições estruturais para atender a população. As paredes apresentavam grandes rachaduras e, segundo os moradores, chegavam a dar choque em dias de chuva. O prédio estava alugado há 13 anos pela prefeitura e nunca havia passado por uma reforma estrutural. A denúncia chegou à redação do jornal por um telespectador. As soluções foram tomadas um dia após a veiculação da reportagem.
Já o jornalismo sensacionalista é descrito abaixo por Delton Unglaub, no artigo O que é sensacionalismo?, publicado no site Canal da Imprensa:
Fazer apelo a reações mais baseadas na emoção do que na razão, trazendo sentimentos primários à tona, simplificando polêmicas em vez de fornecer elementos que permitam pensar, compreender, formar opinião. E, neste contexto, não interessa só aquilo que o veículo diz, mas também o modo como se diz. É claro que a mídia deve ser investigativa, denunciante de injustiças. Este é seu principal papel na sociedade, mas precisa ser exercido com responsabilidade, visando as conseqüências que erros de informação podem causar. (acessado em 2009).


Sensacionalismo é o que rotineiramente acontece com programas policiais. As matérias de apelo ocupam boa parte do espelho desses programas. Foi o que aconteceu com a matéria sobre um homem, identificado apenas por Severino, um lanterneiro que estava doente e precisava de tratamento particular, veiculada do programa Fique Alerta, também da TV Pajuçara, em setembro deste ano.
A reportagem começa com uma foto do lanterneiro, pendurada na parede, com sua esposa, sorrindo. O repórter diz que, ao contrário do retrato, a realidade de Severino, há um ano, não era mais de alegria. Depois, começa a relatar o caso do homem de 38 anos que teve problemas nos ossos da bacia e estava debilitado, em uma cama, sem andar.
Antes de chegar à imagem deplorável do homem à cama, a reportagem mostra a esposa chorando e a família com aparência triste. O repórter chega ao lado de Severino, deitado sobre a cama, senta ao lado do enfermo. Este, por sua vez, lamenta a própria situação, dizendo que tinha vontade de trabalhar, mas que era obrigado a ficar em cima de uma cama.
Durante quase 4 minutos a história e desenrolada frente à câmera, mostrando que Severino precisa de tratamento particular, ao custo de R$ 3.500,00, com um oncologista e um ortopedista. A reportagem termina sem uma solução para os problemas de Severino. Até o fechamento desta pesquisa, o homem continuava na mesma situação.
Mostrar e cobrar soluções para casos como o drama econômico de várias famílias de uma comunidade ou de um posto de saúde sem estrutura que atende a um grande grupo de pessoas é o que caracteriza o jornalismo comunitário. O caso de Severino também gera comoção e imagens impactantes e pode até sensibilizar um ou outro telespectador, mas o drama dele é algo individual. Não é vivido por toda uma comunidade. Isto, portanto, caracteriza o jornalismo sensacionalista.

2.2 Liberdade de Imprensa x Liberdade de Empresa

Os profissionais da imprensa esbarram num problema que independe diretamente de sua visão pessoal ou profissional: As intervenções políticas e comerciais em seus trabalhos. Contrariando o Código de Ética do Jornalista Brasileiro, que diz, no artigo 2º, que “os jornalistas não podem admitir que ele (o acesso à informação) seja impedido por nenhum tipo de interesse” (2007), não raramente, em redações do mundo inteiro, uma sugestão de pauta relevante à sociedade não pode ser levada à frente por questões comerciais ou políticas relacionadas aos donos dos veículos. A liberdade de imprensa, neste caso, perde lugar para o que se convencionou chamar de Liberdade de Empresa. Venâncio de Lima, em artigo publicado no site Observatório da Imprensa, em 06/09/2005 diz:
Não é segredo para ninguém que a indústria das comunicações, apesar de crises financeiras localizadas, transformou-se num dos principais negócios das últimas décadas, e exemplo de concentração da propriedade no mundo globalizado. Reduzida a alguns megagrupos privados, tendem cada vez mais a controlar o que vemos, ouvimos e lemos. Basta olhar ao redor: uns poucos grupos familiares-empresariais, alguns associados a conglomerados multinacionais, praticamente controlam todo o fluxo das comunicações no Brasil. (2005).


Nos bastidores do jornalismo, é comum ouvir que alguma matéria relevante não foi veiculada por causa dos vínculos políticos entre os donos do veículo e autoridades competentes para resolver aquela questão. A prática é repugnada por Eugênio Bucci, em A Imprensa e o Dever da Liberdade.
Os jornalistas devem recusar qualquer vínculo, direto ou indireto, com instituições, causas ou interesses comerciais que possa acarretar – ou dar a impressão de que venha a acarretar – a captura do modo como vêem, relatam e se relacionam com os fatos e as idéias que estão encarregados de cobrir. (2009)
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Caso clássico da influência política foi a posição tomada pela Rede Globo de Televisão com relação ao movimento Diretas Já, em 1984. O jornalista Clovis Rossi lembra o fato, em Vale A Pena Ser Jornalista?:
Durante o primeiro semestre de 1984, todo o Brasil foi sacudido pela campanha chamada de ‘diretas-já’, pedindo o imediato restabelecimento das eleições diretas para a Presidência da República, suprimidas pelo regime militar imposto em 1964. Num primeiro momento, a Rede Globo de Televisão – principal veículo de comunicação do país – foi contra a campanha. Era seu direito fixar tal posição. Mas ela ultrapassou claramente a fronteira entre opinião e informação, ao tentar fazer passar a seus telespectadores que o primeiro grande comício pelas diretas-já em São Paulo (25.01.1984) fora apenas uma manifestação a mais dentro das comemorações ao aniversário da cidade, que transcorre justamente no dia 25 de janeiro (1986, p. 9).


Como se vê através do depoimento do jornalista, o Jornal Nacional, que até hoje é o principal telejornal do país, reduziu a importância e o impacto que poderia ser causado pela notícia de que mais de duzentas mil pessoas estavam nas ruas, reivindicando por democracia. Tudo isso, levado pelo posicionamento político adotado pela Rede Globo de Televisão.
Ainda falando sobre o Jornal Nacional, anos mais tarde, em 1989, ele também foi criticado por sua posição política tendenciosa, ao editar o debate presidencial, dias antes das eleições, favorecendo o candidato Fernando Collor de Melo, que saiu vitorioso.
É certo que os vínculos são essenciais para que os emissoras de televisão, jornais impressos ou quaisquer veículos de comunicação possam existir, vista a receita gerada por parcerias entre as empresas e a outra parte. Tal realidade reitera a força que o telejornalismo exerce sobre a comunidade, como diz Juvenal Zanchetta Junior, em Imprensa Escrita e Telejornal: “A imprensa é mais poderosa que o governo, sendo capaz de interferir na vida de toda uma comunidade” (2004, p. 17).
O que se critica é como esses vínculos interferem no conteúdo a ser publicado por veículos. O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, em seu artigo 4º continua a repugnar a intervenção comercial e política no trabalho dos jornalistas, quando diz que “o compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação”.
Mais adiante, no artigo 6º, inciso VII, o Código dita que é dever do jornalista, “combater e denunciar todas as formas de corrupção, em especial quando exercidas com o objetivo de controlar a informação” e, ainda, no inciso XIII do mesmo artigo: “denunciar as práticas de assédio moral no trabalho às autoridades e, quando for o caso, à comissão de ética competente”.

3 – INTERATIVIDADE NA TELEVISÃO

O jornalismo comunitário ganhou uma grande aliada nos últimos anos: A interatividade. Para vários pesquisadores, o termo significa o potencial de habilidade de uma mídia em permitir que o usuário exerça influência sobre o conteúdo ou a forma da comunicação apresentada.
Mas a interatividade como parceira deste segmento jornalístico só foi possível, graças à popularização de novas tecnologias, aliadas ao barateamento de computadores e celulares. O resultado pôde ser comprovado por números no primeiro capítulo desta Pesquisa.
Na contramão do crescimento do número de brasileiros conectados à Internet e de venda de computadores, estudos apontam que a venda de telefones celulares sofreu redução. Entre os meses de Janeiro e Agosto de 2009, o número de aparelhos vendidos foi 20% menor que o mesmo período de 2008. Segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), o número de novas linhas, no entanto, aumentou 1,6% em comparação a 2008. Ainda de acordo com a Agência, 85,9% dos brasileiros possuem um aparelho de telefone móvel.
Considerando que, atualmente, os principais meios de interação entre veículos e audiência tem sido telefones celulares (através de ligações e mensagens de texto) e internet (através dos sites dos veículos), os dados acima representam um canal aberto ente as duas partes.
O público da televisão sabe o caminho certo de chegar ao programa preferido, deixar críticas, sugestões e tirar dúvidas, além de participar na criação de atrações televisivas. Há muito interesse comercial por trás desta interação, e, por isso, na televisão, este segmento é crescente. No entanto, a Pesquisa mostra adiante que este veículo foi um dos últimos a descobrir os benefícios da participação do público, já que esta forma de comunicação é relativamente nova.

3.1 História da Interatividade na Televisão

O público conheceu a interatividade através do rádio. Por telefone, o ouvinte se transformava num emissor, enquanto outras milhares de pessoas o ouviam. O modelo serviu para popularizar este veículo de comunicação. Segundo o diretor regional da BBC para rádios e sites locais, Lucio Mesquita, em entrevista ao Portal IMPRENSA (2009), “até recentemente, a única forma prática de interatividade era o telefone e o rádio sempre explorou, e bem, o uso da telefonia fixa para obter informação e interagir com o ouvinte”, acrescentando que a internet e a telefonia móvel são novas opções que o rádio tem para alcançar uma audiência maior.
Os jornais impressos também se utilizam desta prática. É o caso de seções comumente chamadas de Carta do Leitor, quando os leitores daquele periódico escrevem sobre determinados assuntos já publicados. Uma ótima ferramenta mercadológica, segundo Juvenal Zanchetta Junior publicou em Imprensa Escrita e Telejornal: “Iniciativas como essas deixam entrever a face mais empresarial da imprensa: veiculam-se, de preferência, assuntos capazes de atrair o leitor”. (2004, p. 15).
Seguindo a mesma linha de outros veículos, a televisão incorporou a interatividade em sua programação. O primeiro programa a utilizar deste recurso como atração principal foi o extinto “Você Decide”, da Rede Globo de Televisão. O programa foi ao ar de 1992 ao ano 2000 e era de grande popularidade. Os telespectadores, inicialmente, podiam escolher o final da trama apresentada no programa, através das opções sim e não. O voto era feito por telefone. Com o passar do tempo, o programa começou a variar as possibilidades, como conta o site Memória Globo, da Rede Globo de Televisão.
Em 1997, foi testado um modelo com três possibilidades, mas meses depois o programa voltou ao formato original. As perguntas, porém, passaram a ser mais complexas: em vez de “sim” e “não”, havia escolhas entre o amor por duas pessoas, se suspeito era ou não culpado de um crime ou mesmo quem era o pai de um personagem. (acessado em 2009).


A partir daí, outros programas começaram a receber a participação do público pelo telefone, fazendo com que os telespectadores tivessem o direito de escolher o que queriam assistir.
O formato inspirou o programa Intercine, na mesma emissora, em 1996 e que continua no ar até hoje. Os telespectadores escolhem, com 24 horas de antecedência, entre três filmes. O vencedor é exibido na madrugada do sábado.
Seguindo esta linha, de fazer o público escolher o que quer assistir, o canal fechado TNT exibe o programa Cinema A La Carte, utilizando a internet como meio de interatividade, fazendo o público escolher entre dois ou mais filmes. O vencedor da votação é exibido na programação.
Na Music Television (MTV), o programa Barraco MTV, exibido pela primeria vez em 2000, era um grande debate, que recebia opiniões e sugestões de seus telespectadores através de fax, telefone, e-mail e até bip.
Programas jornalísticos começaram a fazer uso da interativideade, percebendo o poder que ela exercia nos telespectadores, ávidos por opiniar e palpitar no conteúdo mostrado na televisão. No entanto, há correntes de especialistas que defendem que não haja interatividade na televisão, ou que ela seja limitada.
É o caso de um grupo de pesquisadores em relação ao dominical Fantástico, também da rede Globo, que realiza enquetes com o público, através de um telefone gratuito. Em 2002, o modelo foi criticado por Gabriela Gemignani e Marcos Pierry, em artigo publicando no livro A Vida Com a TV – O poder da televisão no cotidiano (2002, p. 134), por limitar o número de ligações a 2 mil chamadas. Nesta época, apenas no Estado de São Paulo, 1,5 milhão de pessoas sintonizava a atração. O número de espectadores, só naquele Estado, segundo os pesquisadores, representava 0,13% do número de ligações.
Entre erros e acertos, a televisão foi adaptando a interatividade ao seu modo e, hoje, o público tem total acesso às equipes que comandam a programação. A opinião do público é um dos quesitos fundamentais que mantém ou retiram uma atração do ar. Através de e-mails, telefonemas para as emissoras, ou até comentários feitos por telespectadores em sites de discussão, redes sociais e blogs, o grau de aceitação é medido. A isso também se dá o nome de interatividade.

3.2 A interatividade hoje

A popularização de computadores, o aumento de velocidade da internet e a facilidade em adquirir telefones celulares, são alguns dos aspectos mais marcantes para a viabilização da interatividade nos veículos de comunicação atuais. Os veículos nunca estiveram tão perto de sua audiência, estabelecendo a comunicação como uma via de mão dupla.
As redes sociais são um grande instrumento de comunicação entre empresas e audiência. Pesquisa publicada em Março de 2009, pela IBM, mostra a popularidade das redes. O estudo prevê que, em três anos, o número de internautas em redes sociais (Orkut, Facebook, MySpace, Twitter, entre outros) ultrapassará 800 milhões. Ainda de acordo com a pesquisa, a TV pela internet, em 2012, deve apresentar o maior crescimento da rede, com aumento de 104% de participação.
O gerente de Interatividade do Pajuçara Sistema de Comunicação (PSCOM), Marcelo Martins, tem a função de ficar atento ao surgimento de novas mídias e viabilizar o uso delas na televisão, para que possam estreitar o canal de comunicação entre emissora e telespectador. Segundo ele, a internet traz inúmeras ferramentas úteis para que se exerça a interatividade. Ele acredita que as ferramentas de comunicação criam maior entendimento por parte da audiência, sobre o formato dos programas ofertados e deixam a empresa conhecer as opiniões de quem acompanha a programação. “As pessoas querem dar opiniões sobre determinados assuntos, participar de promoções, fazer denúncias e gostam de ver tendo valor sua opinião ou sugestão de pauta” (ENTREVISTA, 2009). Marcelo diz ainda que, diariamente, o Portal de Voz recebe cerca de 15 mil ligações. São pessoas que participam de enquetes, promoções e dão sugestões.
No entanto, a internet ainda não é o ponto forte da interatividade no PSCOM. Marcelo Martins explica que, dentre as ferramentas de interatividade da empresa, que inclui Portal de Voz (serviço de ligações), SMS, Clube de Assinaturas por SMS, Twitter, Orkut, MSN e e-mail, o telefone ainda é o mais usado. Neste caso, utilizando-se do Portal de Voz.
Agora, a expectativa é para a chegada da TV Digital, que deve cobrir todo o território nacional até 2014. A previsão do Ministério das Comunicações é de que o sinal digital chegue à casa de todos os brasileiros antes disso. Em 2016, o sinal analógico deve ser completamente substituído pelo digital.

3.3 A interatividade na TV Digital

A TV Digital começou a ser implantada no Brasil em dezembro de 2007. Muito antes disso, as discussões sobre esta nova tecnologia giravam em torno de modelos a serem adotados pelo Brasil (norte americano, japonês ou europeu), a adequação tecnológica das emissoras e a qualidade de som e imagem transmitidos pelo sistema.
As conversas não paravam por aí. Uma das grandes novidades da TV Digital é a interatividade. Em entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, em 25/08/2009, o diretor de Engenharia da TV Globo São Paulo, Raymundo Barros, considerou que, em alguns anos, a interatividade será tão importante quanto o áudio e vídeo são para os telespectadores. Ele disse ainda que é “uma excelente ferramenta para aumentar a atratividade de nossos conteúdos”.
Outros especialistas concordam com Raymundo Barros. No livro Televisão Digital – desafios para a comunicação, organizado por Sebastião Squirra e Yvana Fechine, o PhD em Ciências da Computação, Carlos Ferraz, defende o aumento da participação do público, que deixa de ser passivo (apenas recebe a programação) para ser ativo (influenciar na programação e escolher o que quer assistir), quando se reúne os canais de interatividade atuais (basicamente telefone e internet) no controle remoto. No entanto, os pesquisadores acreditam que a interatividade só será aceita pelo público se o usuário conseguir identificar uma utilidade nela.
Quanto mais úteis forem as aplicações, maior sucesso fará a interatividade na TV (digital). A grande pergunta é: Para que serve a interatividade da TV Digital? As respostas são várias: Espera-se que a interatividade seja útil para melhorar a participação do público na TV, permitir o acesso a serviços e tornar a televisão mais informativa ou divertida. (2009, p. 38).


Segundo Carlos Ferraz, as discussões sobre a interatividade na TV Digital se voltam para as formas de participação do telespectador no conteúdo. Mas já há idéias de que será possível, por exemplo, durante a exibição do capítulo de uma novela, que o telespectador obtenha informações e até compre um objeto que está em cena, pelo controle remoto. A TV Digital ainda torna possível participar de enquetes e ler sinopses dos programas.
Mas os brasileiros vão ter que esperar um pouco para aproveitar da interatividade no mundo digital. Em primeiro lugar, porque a previsão é de que ela só comece a funcionar em dois ou três anos, com a segunda fase da implantação da tecnologia no Brasil. Em segundo, porque, segundo Ferraz, “não há modelos de negócios consistentes, que conveçam as emissoras a investir”. Outro empecilho pode estar, ainda de acordo com o autor, na resistência do público, durante a transição de passividade para atividade. Tais obstáculos podem ser superados, segundo o especialista, usando a criatividade.
Um grande desafio é ter aplicações atraentes, mas de fácil uso, considerando um dispositivo de entrada de dados bastante simples (controle remoto) e que a teçla está a algunsmetros de distãncia, diferentemente dos computadores, que possem teclado, mouse e tela a poucos centímetros do usuário. É preciso ser criativo! (2009, p. 40).

4 – A VOZ DA COMUNIDADE

Em 1991 entrava no ar o telejornal Aqui Agora, no SBT. Entre reportagens sensacionalistas e manchetes escandalosas, o programa tinha também uma linha de matérias com forte apelo popular. Depois dele, muitos outros programas policiais começaram a invadir a grade de programação de emissoras nacionais e locais. Entre um crime e outro, o jornal exibia matérias de cunho comunitário, como o quadro de defesa do consumidor, apresentado por Celso Russomano.
Nesta parte do programa, consumidores que se sentiam lesados, de alguma forma, eram colocados frente a frente com prestadores de serviço. O caso normalmente era resolvido depois de muitos minutos de negociação. O bordão “Estando bom para ambas as partes, Celso Russomano aqui e agora” ficou conhecido no Brasil inteiro. A popularidade do quadro levou Russomano a eleger-se deputado federal.
Fazer a comunidade participar de telejornais é uma estratégia para aumentar audiência que dá certo. Várias emissoras já comprovaram isso em números. Na Rede Globo de Televisão, por exemplo, os jornais locais que vão ao ar ao meio dia têm grande apelo popular, como formato padrão.
Na TV Pajuçara, o principal jornal diário, o Jornal da Pajuçara Noite (JP Noite), prioriza as matérias factuais, que caracteriza o estilo editorial do hard news. Em Telejornalismo No Brasil: um perfil editorial, Guilherme Jorge de Rezende define esta linha editorial por notícias que “referem-se geralmente a acontecimentos não previstos na pauta e têm de ser veiculadas naquele dia” (2000, p. 33). Mas nem só de factual é feito o Jornal da Pajuçara Noite. Para atrair audiência e retratar o slogan “do jeito da nossa gente”, da TV, as denúncias de telespectadores ganham um espaço quase diário no jornalístico.
Em entrevista, a produtora do Jornal da Pajuçara Noite, Renata Pais, classificou a sugestão de telespectador como um dos principais geradores de pautas.
No Jornal da Noite, priorizamos o factual e a sugestão de telespectador, que chegam à nossa redação por telefone e e-mail, basicamente. As informações são checadas e avaliadas pela equipe de produção dos jornais. (...) Acontece de voltarmos a entrar em contato com a pessoa que fez a denúncia para saber se a matéria fez efeito e, normalmente, o resultado é bem positivo. (...) Deixamos sempre claro no jornal quando a sugestão é feita por um telespectador e isso acaba atraindo outras pessoas para sugerirem também. (ENTREVISTA, 2009).


As matérias que apresentam denúncias mais fortes contam com a versão do órgão responsável pela resolução do caso mostrado, sendo eles, geralmente, algum representante dos governos municipal ou estadual. Em outros casos, a versão do órgão competente é dada por Nota Pé, definida por Flávio Prado, no livro Ponto Eletrônico: Dicas para fazer jornalismo com qualidade:
Às vezes acontece de, ao final de uma matéria, você ter de dar informações complementares que, por diversos motivos, não entraram na cabeça nem no trabalho do repórter. Nesse caso é preciso escrever uma lauda a mais acrescentando o que for necessário. Essa lauda é a nota-pé. Normalmente é usada para endereços e telefones dos locais apresentados nas matérias ou para atualizar e complementar a notícia com fatos que aconteceram após a saída do repórter do local. Serve também para dar uma versão de um dos envolvidos na notícia, que, por alguma razão, não foi entrevistado. (1996).


A partir de agora, esta pesquisa vai exemplificar como as denúncias apresentadas pelo telejornal Jornal da Pajuçara Noite mudam a rotina de uma comunidade. Abaixo, serão mostrados alguns casos relevantes apresentados pelo programa e o que aconteceu depois da veiculação da reportagem.

4.1 Exemplo clássico de denúncia

A prática do Jornalismo Comunitário exige que as denúncias sejam levadas a sério pela equipe de jornalismo. Não é preciso apenas fazer a matéria, mas atentar para a resolução do problema. As reportagens precisam de acompanhamento constante, até que os problemas sejam resolvidos.
No caso da Escola Estadual Maria Ivone dos Santos, houve um acompanhamento da equipe de jornalismo da TV Pajuçara sobre os problemas apresentados pela comunidade. Como parte disso, por várias vezes, a equipe do Jornal da Pajuçara Noite entrou em contato com a diretora da instituição, para acompanhar o andamento das respostas da Secretaria Estadual de Educação às denúncias apresentadas por servidores e alunos.
A primeira cobrança dos alunos da Escola Estadual Maria Ivone dos Santos era bem antiga. As obras da instituição de ensino começaram em 2005. Já era Abril de 2009 e a Escola ainda estava em obras. O prazo dado pela Secretaria Estadual da Educação e do Esporte já havia sido prorrogado incontáveis vezes e a população cobrava por uma resposta.
Em um protesto, alunos, pais e professores usaram roupas pretas para simbolizar, segundo eles mesmos, a insatisfação e o descaso com a educação do Estado.
Na época, uma funcionária do colégio, Cláudia de Araújo, admitiu que a obra estava quase concluída, faltando apenas alguns retoques, como colocação de portas e reparo nas pinturas. A população denunciava um impasse financeiro entre a Secretaria e a construtora responsável pela obra, que prometia adiar ainda mais a entrega da escola.
A matéria foi ao ar no dia 29/04/2009, com o posicionamento da Secretaria Estadual de Educação e Esporte em Nota Pé. A assessoria de imprensa do órgão informou que a escola não tinha sido entregue até aquela data porque a construtora não apresentou um documento exigido para a liberação do pagamento. Segundo a Secretaria, a obra seria concluída no ato da entrega da documentação correta. Em relação à falta de segurança, o 5º Batalhão de Polícia Militar garantiu visitar o local como Batalhão Escolar.
Em outubro, procurada por esta pesquisa, Cláudia de Araújo disse que a Escola foi entregue com algumas pendências. Entre elas, o terreno do local é acidentado, a quadra de esportes presente no projeto inicial nunca existiu e algumas instalações elétricas não foram feitas, o que acarretou na impossibilidade de ligar computadores e ventiladores.
A reportagem do Jornal da Pajuçara Noite voltou ao local. Como resultado, o repórter Lucas Malafaia encontrou, logo ao chegar à Escola, alunos servindo de porteiros. Por falta de efetivo, a diretora da instituição fazia este serviço. Quando ela estava ocupada, os alunos tomavam o lugar.
Durante a matéria, o repórter Lucas Malafaia relata:
A escola não tem nenhum porteiro. Segundo direção, a unidade deveria contar ainda com dezoito auxiliares de limpeza, mas apenas cinco trabalham por aqui. Também faltam merendeiras, agentes administrativos e professores (2009).


Durante a matéria, ficou claro que estes são alguns dos problemas enfrentados pela instituição de ensino. Na reportagem, a diretora, Maria Sueli Alves cobra com urgência o aumento do muro da escola, muito baixo para uma região considerada perigosa. A diretora contou que já havia mandado um ofício para a Secretaria de Educação e aguardava um retorno.
Outra reivindicação é o acervo de livros da biblioteca, que se encontrava no almoxarifado da Secretaria de Educação.
Em Nota Pé, a Secretaria de Educação informou que o Governo não pode contratar novos funcionários para a escola, por causa da Lei de Responsabilidade Fiscal. No entanto, a Secretaria prometeu que uma equipe do órgão visitaria a instituição no dia seguinte à veiculação da reportagem para avaliar a reforma do muro. Sobre a biblioteca, a assessoria de imprensa da Secretaria de Educação informou que a repartição identificou um erro no pedido feito pela direção da escola.
A pesquisa voltou a entrar em contato com a funcionária Cláudia de Araújo depois da segunda reportagem veiculada pelo telejornal analisado. Ela relatou que até o dia 21 de outubro de 2009, portanto, dezesseis dias depois da reportagem, a Secretaria da Educação e do Esporte ainda não havia resolvido o problema dos alunos e da instituição de ensino.

4.2 A denúncia que não deu certo

Por motivos imprevistos, algumas denúncias, no entanto, não conseguem surtir o efeito desejado perante os órgãos competentes. Quando isso acontece, é como se o objetivo final do Jornalismo Comunitário, de fazer com que os problemas sejam resolvidos, não fosse alcançado. Foi o que aconteceu com uma reportagem veiculada em Março, pelo Jornal da Pajuçara Noite.
Uma funcionária do posto de saúde da Cruz Vermelha, em Maceió, ligou para a redação do JP Noite para denunciar um protesto que aconteceria no dia seguinte, em 18/03/2009. Funcionários e pacientes da Unidade de Saúde iriam protestar para que o Município desse, pelo menos, a verba de custeio, para que fosse possível manter a casa de saúde. Caso contrário, ela seria fechada e os cerca de 1.500 pacientes atendidos todos os meses, ficariam sem o posto.
Na hora marcada, o repórter Lucas Malafaia esteve no local. Pequenos protestos, de cinco minutos, em média, fecharam a Avenida Gustavo Paiva por algumas vezes. Entre os gritos de ‘Queremos posto!’ por parte da população e as buzinas insatisfeitas de motoristas prejudicados pelo protesto, a diretora do posto, Sônia Venir, contou ao repórter que, muitas vezes, é preciso que os profissionais de lá comprem os materiais necessários para trabalhar. “Todos os profissionais que trabalham aqui, nós estamos nos cotizando, comprando material de limpeza, abaixador de língua, luvas, espéculo, com o nosso próprio recurso, para não parar a unidade.” (2009). A diretora do posto disse ainda, que faltava material de limpeza e medicamentos.
A presidente da Cruz Vermelha em Alagoas, Maria Helena Russo, concedeu entrevista ao repórter. Ela contou que a instituição é solidária ao protesto, mas que o Município precisaria tomar uma posição.
A produção do Jornal da Pajuçara Noite não conseguiu contato com a Secretaria Municipal de Saúde antes de veicular a reportagem. Mesmo depois de a matéria ir ao ar, a TV Pajuçara não foi procurada pela Secretaria, e não recebeu nenhuma resposta do governo Municipal sobre situação dos manifestantes.
Inconformados com a omissão das autoridades, funcionários e pacientes realizaram outro protesto 12 dias depois, com as mesmas reivindicações. A Secretaria continuou sem dar respostas.
Sete meses depois, este Trabalho procurou a equipe do Posto de Saúde da Cruz Vermelha. Os funcionários informaram que a unidade de saúde continua funcionando na mesma situação precária de antes e que a Prefeitura nunca deu ajuda a eles.
Neste caso, o Jornalismo Comunitário cumpriu apenas a primeira parte do objetivo: Mostrar os problemas de um nicho da sociedade; Porém, a segunda parte, que é a de cobrar por soluções, não foi cumprida, pois a Secretaria de Saúde do Município, por algum motivo, não foi ouvida. Atualmente, os médicos ainda precisam comprar equipamentos e materiais de trabalho por conta própria, mas a população não deixou de ser atendida.

4.3 A denúncia com personagem

Algumas vezes, o Jornalismo Comunitário utiliza a figura de um cidadão isolado para retratar uma realidade vivida por várias pessoas ao mesmo tempo. A elas, dá-se o nome de personagem. É um trabalho de produção, muitas vezes difícil, e que depende do conhecimento pessoal de cada um da equipe. O personagem, algumas vezes, é um parente ou amigo de alguém da redação, ou alguém que liga para reclamar de alguma coisa e se dispõe a contar seu caso na televisão.
No caso desta reportagem do Jornal da Pajuçara Noite, a equipe de produção contou com a ajuda da repórter Rachel Amorim, que recebeu a sugestão de pauta de um homem, enquanto fazia uma matéria na rua.
Ele (o personagem) me abordou quando eu terminei (uma matéria lá mesmo, no Detran, sobre outro assunto). Me contou o caso dele e me deu o telefone. Eu passei adiante, para uma das produtoras do Jornal e ela ligou para conferir. Depois, a produção entrou em contato com o Detran e constatou que o problema dele era o mesmo de muita gente. Neste caso, cabe fazer uma matéria para esclarecer o que está acontecendo e cobrar para que seja resolvido. (ENTREVISTA, 2009).


Quando há uma denúncia, existe a necessidade de fazer o possível para ouvir todos os lados da história na mesma matéria, sem que seja necessária a entrada de uma Nota Pé, lida pelo apresentador. No caso desta reportagem, os dois lados envolvidos na história foram ouvidos: Quem reclamava e o responsável por resolver os problemas reclamados.
O personagem que sugeriu a matéria é o motorista Flávio Rogério. Há mais de um mês, tentava tirar a segunda via da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Segundo ele, a resposta do Departamento Nacional de Trânsito em Alagoas (Detran/AL) era sempre a mesma: “Que o sistema está fora do ar. (...) Pelo menos duas vezes por semana eu estou aqui, e o sistema continua fora do ar” (Jornal da Pajuçara Noite, 2009). Como não conseguia resolver o problema, o motorista que não podia dirigir, foi demitido.
A equipe do Jornal da Pajuçara Noite constatou que o problema de Flávio não era um caso isolado. O repórter Lucas Malafaia conta, na matéria veiculada em 27/04/2009, que cerca de 6.500 processos estavam parados no Detran, entre primeira CNH, renovação e segunda via, ou seja, era um problema de alguns milhares de pessoas.
A reportagem ouviu o coordenador de Controle de Condutores do Detran, Sérgio Ronaldo. Ele explicou que o atraso na entrega dos documentos foi motivado por conta do novo Sistema Nacional de Dados, que começou a ser implantado no dia 11 de fevereiro.
Em uma rápida pesquisa na internet, é possível constatar que, de fato, o Sistema Nacional de Dados do Detran causou atraso na entrega de documentos no Brasil inteiro. Sérgio Ronaldo disse, na reportagem, que os problemas já estavam sendo corrigidos e deu a previsão de quando o serviço seria normalizado: “Acredito que em dez, doze dias, o sistema esteja, normalmente, funcionando de forma satisfatória” (Jornal da Pajuçara Noite, 2009).
Quase um mês depois, a produção do JP Noite recebeu duas ligações de pessoas que também estavam com o problema de Flávio Rogério. Logo, foi constatado que o coordenador de Controle de Condutores do Detran se enganou na previsão dada na reportagem.
Uma das pessoas que ligou foi Walter Silva. Ele tinha sido assaltado e perdeu a habilitação. Ele solicitara a segunda via da carteira de motorista há um mês, bem na época da primeira reportagem sobre o assunto veiculada pelo Jornal. Ele também era motorista e, por isso, estava com medo de ser demitido, por não poder exercer a profissão. Walter já tinha ido duas vezes ao Detran, procurar pelo documento, mas não conseguiu.
Johnny Lucas, outro personagem, também teve o documento roubado. Há 35 dias tentava uma nova CNH.
A reportagem da TV Pajuçara voltou, então, a procurar o coordenador de Controle de Condutores, Sérgio Ronaldo. Ele contou que a demora toda era porque, agora, a carteira é emitida pelo Departamento Nacional de Trânsito. "Toda tarde a gente tenta emitir CNH e não consegue. É uma situação de calamidade pública nacional" (Jornal da Pajuçara Noite, 2009).

4.4 As denúncias que pautam a imprensa

A maior vitória de uma equipe envolvida em uma pauta de Jornalismo Comunitário, é quando a autoridade responsável pela resolução dos problemas apresentados, não só resolve o caso, como se posiciona perante todos os veículos de comunicação para prestar esclarecimentos. Uma matéria veiculada pode levar a uma coletiva de imprensa para que seja feita a prestação de contas, por exemplo.

4.4.1 – Trajeto ônibus/Mercado

No caso desta reportagem, a Polícia Militar divulgou uma Nota Oficial, que foi repercutida em outros meios de comunicação.
Em abril chegou à redação, por telefone, a denúncia de que motoristas e cobradores de ônibus que faziam a linha parando no terminal rodoviário do Mercado da Produção estavam queimando o ponto. A gíria significa que os motoristas não paravam no local. O motivo: A violência.
A denúncia, feita pelo usuário de transporte público, Jurandir Dias de Araújo, foi checada junto ao 1º Batalhão de Polícia Militar, que, por telefone, informou que a segurança na área já havia sido reforçada.
Mas, ao chegar ao local, a equipe de reportagem encontrou um ambiente abandonado, vazio e sem segurança alguma. A repórter Rachel Amorim diz na matéria: “Desde o último domingo, o terminal do Mercado da Produção serve apenas como ponto de encontro de amigos. Por conta dos constantes assaltos, os ônibus não passam mais pelo local. Com medo da violência, motoristas e cobradores preferiram mudar o itinerário dos coletivos.” (Jornal da Pajuçara Noite, 2009).
Durante a reportagem, vários passageiros reclamaram da falta de ônibus no terminal. Um dos entrevistados, revoltado, chegou a dizer “Não existe ônibus, não existe segurança, não existe nada”. Para pegar ônibus, eles tinham que andar cerca de um quilômetro até o terminal da Praça da Faculdade.
A reportagem se dirigiu até o local e, após um grande trabalho de convencimento, conseguiu que um motorista falasse. No entanto, ele só aceitou colaborar com a matéria se não fosse identificado. De costas para a câmera, ele relatou:
De vez em quando é que passa dois, três policiais, mas não fica assim, diariamente. A gente, todo dia está lá. Todo dia tem assalto, todo dia é ladrão. O pessoal coloca a feira dentro do ônibus, o ladrão leva. O pessoal está ali com feira, leva. O pessoal está com celular, só basta localizar o celular, oxe, lá vem o bote. (2009).


A polícia foi ouvida na entrevista e reconheceu que o local era crítico. O policial disse que a resposta imediata seria o reforço no policiamento motorizado. Ou seja, a polícia iria aumentar o número de viaturas fazendo a ronda no local.
Oito dias depois da veiculação da reportagem, a assessoria de imprensa da Polícia Militar informou que os ônibus haviam voltado a incluir o terminal rodoviário do Mercado da Produção no itinerário. A nota da Polícia prometia ainda o policiamento ostensivo nos horários de maior movimento e rondas nos demais horários. Além disso, os policiais iriam circular dentro dos ônibus para aumentar a segurança.
Vários veículos de comunicação, inclusive o de organizações concorrentes do Pajuçara Sistema de Comunicação, como é o caso do site Gazetaweb.com, das Organizações Arnon de Mello, repercutiram o fato, divulgando que os ônibus já haviam voltado ao itinerário normal.
Depois de uma reunião realizada na manhã desta terça-feira (28), no quartel geral da Polícia Militar, entre o Sindicato dos Trabalhadores em Transportes Rodoviários de Alagoas e o comandante do Comando de Policiamento da Capital (CPC), ficou decidido que os coletivos vão voltar a circular no terminal de ônibus do Mercado da Produção, bairro Levada. (Gazetaweb, 2009).

Após ter a segurança garantida pela Polícia Militar em uma reunião ocorrida na manhã ontem, 28, o Terminal Rodoviário do Mercado da Produção foi reativado nesta quarta-feira, 29. O motivo do “boicote” dos rodoviários ocorreu devido aos frequentes assaltos cometidos contra passageiros e coletivos no terminal. (Alagoas24horas, 2009).


Outros sites apenas reproduziram o release divulgado pela Assessoria de Comunicação da Polícia Militar de Alagoas, como as páginas Alagoas Em Tempo Real e Primeira Edição.
Representantes do Sindicato dos Trabalhadores de Transportes de Alagoas (Sinttro/AL) e o comandante de Policiamento da Capital, Luciano Silva, decidiram em reunião realizada na manhã de hoje (28), reativar o terminal de ônibus do Mercado da Produção, interditado por questões de segurança. (2009).


Logicamente, a Polícia Militar só se posicionou desta forma porque o problema havia sido exposto na mídia de forma eficaz, em se tratando de Jornalismo Comunitário.
Este trabalho procurou a pessoa que denunciou a violência no terminal, por telefone. Jurandir Dias de Araújo confirmou que, depois da reportagem, o problema foi resolvido.


4.4.2 – Insegurança na Ufal
Outra matéria, mais recente, que gerou uma grande repercussão, foi o caso da insegurança no Campus da Universidade Federal de Alagoas (UFAL).
No dia 23 de Outubro de 2009, uma aluna foi sequestrada enquanto estacionava o carro dentro da UFAL. Os bandidos a levaram para um canavial e roubaram cartões de crédito e senhas, além do dinheiro que estava na carteira. Eles a deixaram no canavial e fugiram. A vítima teve que caminhar até a rodovia para pedir ajuda.
Uma semana depois, um assalto a uma agência bancária que fica dentro do Hospital Universitário, terminou em tiroteio e morte. Três homens armados assaltaram a agência pouco antes do meio-dia e levaram algo em torno de R$ 140 mil além de vários celulares. Na saída, eles tentaram furar o bloqueio imposto pela Polícia na saída do HU. Todos estavam vestindo jalecos brancos, e se passavam por médicos e enfermeiros.
Procurados pela produção do Jornal da Pajuçara Noite, alunos da Universidade disseram que o clima sempre foi de insegurança. A repórter Rachel Amorim foi deslocada até o Campus, para constatar a situação vivida pelos estudantes e funcionários.
Alguns alunos foram entrevistados e todos se disseram inseguros dentro do Campus. Uma aluna disse que conhece casos de colegas que foram ameaçadas e estupradas lá dentro. Outro estudante falou que o jeito era contar com a sorte. “Você não vê policiais, você não vê seguranças. (...) É você e você aqui.” (Jornal da Pajuçara Noite, 2009).
A Universidade foi ouvida na matéria, através do superintendente de Infra-Estrutura, Flávio Barbosa. Ele contou à reportagem que a UFAL investia em segurança, mas também era vítima da violência.
Este ano já ampliamos em mais de 50% o efetivo em relação à segurança na UFAL e entendemos que, dentro do projeto de segurança que foi feito, nós temos condições de dotar a UFAL de segurança. Agora, a questão do dia-a-dia, da passagem, tem que envolver também a prefeitura, o governo, enfim. Não é um problema isolado da UFAL, a UFAL está como vítima também, neste contexto da segurança. (2009).


A matéria repercutiu na imprensa e, na tarde do dia seguinte à veiculação da matéria, a reitora da Universidade Ana Dayse Dórea convocou uma coletiva para falar sobre a falta de segurança na Universidade. Na entrevista, acompanhada pela repórter Lenilda Luna, Ana Dayse disse que, em 2009, foram investido 6 milhões de reais em segurança na UFAL e que, atualmente, 106 homens fazem a segurança do Campus e do HU.
A matéria é desenvolvida com base em promessas de melhoria na segurança da UFAL.

4.5 Quando uma denúncia puxa outra

Algumas vezes, alguma coisa está tão errada que a equipe de jornalismo consegue fazer mais de uma denúncia envolvendo a mesma situação. É o caso dos quiosques de comidas na orla de Maceió. Na primeira matéria, por telefone, a produção do JP Noite recebeu a informação de que os polêmicos mixes da orla estavam abandonados. João Mariano, proprietário de um lote, entrou em contato para relatar que, ao invés de ponto comercial, os quiosques serviam como moradia para desabrigados.
Ao chegar ao local, a equipe de reportagem encontrou um morador de rua que habitava um dos boxes e deu entrevista, se divertindo do fato de que os comerciantes estavam vendendo no sol, enquanto ele estava ocupando o local.
Um dos grandes motivos para a queixa dos proprietários é que cada box custou de 10 mil a 20 mil reais, numa licitação concorrida, segundo o texto da repórter Rachel Amorim.
Os chamados mix foram construídos para padronizar as barracas entre a Pajuçara até a Jatiúca. Depois de uma licitação marcada por polêmicas no final do ano passado, os donos dos espaços foram definidos, mas até hoje permanecem nas antigas tendas, montadas na areia da praia. (...) Com o tempo, os quiosques se transformaram em depósito de lixo e sujeira. (Jornal da Pajuçara Noite, 2009).


Uma semana antes da reportagem, a prefeitura havia começado a distribuir as chaves dos mixes, mas os comerciantes se recusavam a ocupar o local. Segundo a matéria, os estabelecimentos construídos recentemente já precisavam de reformas na estrutura.
Na matéria, a prefeitura não foi ouvida, mas em pouco tempo, os comerciantes tiveram as reclamações atendidas.
Procurado por esta Pesquisa, seis meses depois, o denunciante, João Mariano, contou que, depois da reportagem, os quiosques foram arrumados e entregues aos proprietários, vencedores de licitação. No entanto, ele aproveitou a ligação para fazer mais uma denúncia: Por falta de instalações elétricas adequadas, os comerciantes eram obrigados a fazer ligações improvisadas, classificada por ele como gambiarras.
Sabendo disso, a produção do Jornal da Pajuçara marcou uma nova matéria com os donos de mixes. O horário escolhido não poderia ter sido melhor: A noite, quando os permissionários ligam lâmpadas a fios que circulam a área. A maior preocupação é com a segurança, como relatou o repórter Nilton Leal, na matéria veiculada em 20 de outubro, no Jornal da Pajuçara. “Por se tratar de iluminação improvisada, a segurança não é total, e um curto circuito aqui pode resultar num grande incêndio, já que muitos dos fios estão bem próximos ao telhado da barraca” (Jornal da Pajuçara Noite, 2009).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Não é a toa que José Afonso da Silva classificou a televisão, no segundo capítulo, como o quarto poder. O veículo de massa tem capacidade de ditar o que deve ser feito depois de certo ponto. Algumas pessoas movem mundos para se justificar pós-denúncia televisiva. Crises internas se criam depois de escancarada a realidade no telejornal.
Mas a imprensa não é a grande vilã da história. Pelo contrário. O jornalista, aqui, tem que ser visto como Robin Hood, o herói que roubava dos ricos e dava aos pobres. A denúncia que, muitas vezes, incomoda a políticos e empresários, é a mesma que vai trazer paz e sossego ao seu Zé, à dona Maria e a tantos habitantes de uma comunidade.
Gritos de ordem como “Queremos água!”, “Queremos teto!” e “Queremos justiça!” abrem as portas do jornalismo comunitário, que não pode ser feito com medo de quem ele possa incomodar. Ele segue à risca a intenção dita por Felipe Pena, também no segundo capítulo deste trabalho, de atender às demandas da cidadania e servir como instrumento de mobilização social.
O jornalismo é um instrumento social. Ele deve dar espaço para que a comunidade fale do que vive, independente dos meios que utilize. Existe a necessidade de se aproximar da sociedade, seja ela rica ou pobre.
Que se deixe o espetáculo para programas policiais ou de entretenimento. O Comunitário tem função social, tem responsabilidade e ética. Deve ser praticado seguindo as normas jornalísticas. Ouvir todos os lados, apurar informações e exibir com o máximo de isenção possível faz parte deste segmento.
A dona Severina, o senhor Petrúcio e todos os outros (incluindo, aqui, o seu Zé e a dona Maria), que se enxergam naquelas pessoas mostradas na televisão, agradecem.

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