Os canais de televisão são concessões públicas. Por lei, este meio de comunicação tem obrigação de prestar serviços à sociedade. Um dos principais meios de prestação de serviço é o telejornalismo. Segundo José Afonso da Silva, a função social destes veículos de comunicação, enquanto concessão pública está em “exprimir às autoridades constituídas o pensamento e a vontade popular, colocando-se quase como um quarto poder" (1989, p. 219).
O poder atribuído ao veículo o torna importante na prestação de serviços à comunidade e, por isso, é comum presenciar uma prática usual do telejornalismo, que consiste em identificar e veicular denúncias feitas por um grupo social. Tal modalidade ficou denominada como Jornalismo Comunitário.
Em Teoria do Jornalismo (2005, p. 184) Felipe Pena diz que este segmento jornalístico “Atende às demandas da cidadania e serve como instrumento de mobilização social”. Ou seja, um compromisso não só com o fato, mas com a sociedade.
No entanto, a função do jornalismo comunitário não termina aí. Mais que o ato de veicular as denúncias de moradores ou autoridades, existe a necessidade de cobrar providências de órgãos responsáveis. Para tanto, é importante ater-se aos prazos e pressionar para que eles sejam cumpridos.
Os telejornais locais, principalmente, adotam este tipo de prática e tentam, cada dia mais, enxergar os problemas da população com o olhar de quem vive aquela realidade. É comum encontrar em manuais de telejornalismo, principalmente nos regionais, fragmentos parecidos como diz o Manual de Telejornalismo Regional da Rede Record, coordenado pelo diretor do jornalismo da emissora, Douglas Tavolaro:
A Rede Globo de Televisão adota este segmento jornalístico nos telejornais locais que vão ao ar por volta do meio dia. São os chamados Praça TV 1ª Edição. Este formato é recente, vem de 1998, quando a emissora reforçou a prática do jornalismo comunitário, segundo o site Memória Globo.
Jornalismo Comunitário dá notoriedade à emissora e ao programa perante o grande público. Mas, mais do que pontos de audiência, o jornalismo comunitário procura criar laços de cumplicidade com o telespectador, já que as comunidades se reconhecem naquelas pessoas da televisão, na matéria veiculada.
Este braço do jornalismo é a contramão do monólogo televisivo, tão criticado pelo jornalista Eugênio Bucci em artigo publicado no site da ONG TVer:
2.1 Jornalismo Comunitário x Jornalismo Sensacionalista
O jornalismo Comunitário não trata de explorar a desgraça alheia de um cidadão isolado. As reportagens tratam de problemas que influenciam no cotidiano de várias pessoas ao mesmo tempo. É a notícia pela relevância à comunidade.
Exemplos não faltam nos telejornais locais. Em julho de 2009, o Jornal da Pajuçara Noite, da TV Pajuçara, mostrou que os novos moradores do Conjunto Cidade Sorriso enfrentavam um problema já previsto: A dificuldade de matricular as crianças em escolas públicas da região do Benedito Bentes. Os moradores, vindos de comunidades carentes da orla lagunar e da Cidade de Lona, no conjunto Eustáquio Gomes, não tinham como pagar transporte para que as crianças fossem até a escola, tampouco conseguiram transferir a matrícula dos filhos para instituições do bairro. Como resultado, os pais corriam o risco de perder o benefício do programa Bolsa Família, do governo Federal, que, na maioria dos casos, é a principal fonte de renda da casa. Depois da reportagem veiculada, a prefeitura conseguiu ônibus para transportar as crianças até as instituições de ensino e fazer o trajeto de volta para casa. Os pais não perderam o benefício.
Outro exemplo bem sucedido no quesito Jornalismo Comunitário, na TV Pajuçara, foi o fechamento do Posto de Saúde da Grota do Arroz, também em julho. O local estava sem condições estruturais para atender a população. As paredes apresentavam grandes rachaduras e, segundo os moradores, chegavam a dar choque em dias de chuva. O prédio estava alugado há 13 anos pela prefeitura e nunca havia passado por uma reforma estrutural. A denúncia chegou à redação do jornal por um telespectador. As soluções foram tomadas um dia após a veiculação da reportagem.
Já o jornalismo sensacionalista é descrito abaixo por Delton Unglaub, no artigo O que é sensacionalismo?, publicado no site Canal da Imprensa:
Sensacionalismo é o que rotineiramente acontece com programas policiais. As matérias de apelo ocupam boa parte do espelho desses programas. Foi o que aconteceu com a matéria sobre um homem, identificado apenas por Severino, um lanterneiro que estava doente e precisava de tratamento particular, veiculada do programa Fique Alerta, também da TV Pajuçara, em setembro deste ano.
A reportagem começa com uma foto do lanterneiro, pendurada na parede, com sua esposa, sorrindo. O repórter diz que, ao contrário do retrato, a realidade de Severino, há um ano, não era mais de alegria. Depois, começa a relatar o caso do homem de 38 anos que teve problemas nos ossos da bacia e estava debilitado, em uma cama, sem andar.
Antes de chegar à imagem deplorável do homem à cama, a reportagem mostra a esposa chorando e a família com aparência triste. O repórter chega ao lado de Severino, deitado sobre a cama, senta ao lado do enfermo. Este, por sua vez, lamenta a própria situação, dizendo que tinha vontade de trabalhar, mas que era obrigado a ficar em cima de uma cama.
Durante quase 4 minutos a história e desenrolada frente à câmera, mostrando que Severino precisa de tratamento particular, ao custo de R$ 3.500,00, com um oncologista e um ortopedista. A reportagem termina sem uma solução para os problemas de Severino. Até o fechamento desta pesquisa, o homem continuava na mesma situação.
Mostrar e cobrar soluções para casos como o drama econômico de várias famílias de uma comunidade ou de um posto de saúde sem estrutura que atende a um grande grupo de pessoas é o que caracteriza o jornalismo comunitário. O caso de Severino também gera comoção e imagens impactantes e pode até sensibilizar um ou outro telespectador, mas o drama dele é algo individual. Não é vivido por toda uma comunidade. Isto, portanto, caracteriza o jornalismo sensacionalista.
2.2 Liberdade de Imprensa x Liberdade de Empresa
Os profissionais da imprensa esbarram num problema que independe diretamente de sua visão pessoal ou profissional: As intervenções políticas e comerciais em seus trabalhos. Contrariando o Código de Ética do Jornalista Brasileiro, que diz, no artigo 2º, que “os jornalistas não podem admitir que ele (o acesso à informação) seja impedido por nenhum tipo de interesse” (2007), não raramente, em redações do mundo inteiro, uma sugestão de pauta relevante à sociedade não pode ser levada à frente por questões comerciais ou políticas relacionadas aos donos dos veículos. A liberdade de imprensa, neste caso, perde lugar para o que se convencionou chamar de Liberdade de Empresa. Venâncio de Lima, em artigo publicado no site Observatório da Imprensa, em 06/09/2005 diz:
Nos bastidores do jornalismo, é comum ouvir que alguma matéria relevante não foi veiculada por causa dos vínculos políticos entre os donos do veículo e autoridades competentes para resolver aquela questão. A prática é repugnada por Eugênio Bucci, em A Imprensa e o Dever da Liberdade.
Caso clássico da influência política foi a posição tomada pela Rede Globo de Televisão com relação ao movimento Diretas Já, em 1984. O jornalista Clovis Rossi lembra o fato, em Vale A Pena Ser Jornalista?:
Como se vê através do depoimento do jornalista, o Jornal Nacional, que até hoje é o principal telejornal do país, reduziu a importância e o impacto que poderia ser causado pela notícia de que mais de duzentas mil pessoas estavam nas ruas, reivindicando por democracia. Tudo isso, levado pelo posicionamento político adotado pela Rede Globo de Televisão.
Ainda falando sobre o Jornal Nacional, anos mais tarde, em 1989, ele também foi criticado por sua posição política tendenciosa, ao editar o debate presidencial, dias antes das eleições, favorecendo o candidato Fernando Collor de Melo, que saiu vitorioso.
É certo que os vínculos são essenciais para que os emissoras de televisão, jornais impressos ou quaisquer veículos de comunicação possam existir, vista a receita gerada por parcerias entre as empresas e a outra parte. Tal realidade reitera a força que o telejornalismo exerce sobre a comunidade, como diz Juvenal Zanchetta Junior, em Imprensa Escrita e Telejornal: “A imprensa é mais poderosa que o governo, sendo capaz de interferir na vida de toda uma comunidade” (2004, p. 17).
O que se critica é como esses vínculos interferem no conteúdo a ser publicado por veículos. O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, em seu artigo 4º continua a repugnar a intervenção comercial e política no trabalho dos jornalistas, quando diz que “o compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação”.
Mais adiante, no artigo 6º, inciso VII, o Código dita que é dever do jornalista, “combater e denunciar todas as formas de corrupção, em especial quando exercidas com o objetivo de controlar a informação” e, ainda, no inciso XIII do mesmo artigo: “denunciar as práticas de assédio moral no trabalho às autoridades e, quando for o caso, à comissão de ética competente”.
O poder atribuído ao veículo o torna importante na prestação de serviços à comunidade e, por isso, é comum presenciar uma prática usual do telejornalismo, que consiste em identificar e veicular denúncias feitas por um grupo social. Tal modalidade ficou denominada como Jornalismo Comunitário.
Em Teoria do Jornalismo (2005, p. 184) Felipe Pena diz que este segmento jornalístico “Atende às demandas da cidadania e serve como instrumento de mobilização social”. Ou seja, um compromisso não só com o fato, mas com a sociedade.
No entanto, a função do jornalismo comunitário não termina aí. Mais que o ato de veicular as denúncias de moradores ou autoridades, existe a necessidade de cobrar providências de órgãos responsáveis. Para tanto, é importante ater-se aos prazos e pressionar para que eles sejam cumpridos.
Os telejornais locais, principalmente, adotam este tipo de prática e tentam, cada dia mais, enxergar os problemas da população com o olhar de quem vive aquela realidade. É comum encontrar em manuais de telejornalismo, principalmente nos regionais, fragmentos parecidos como diz o Manual de Telejornalismo Regional da Rede Record, coordenado pelo diretor do jornalismo da emissora, Douglas Tavolaro:
É imprescindível que o telejornal trate dos problemas e das soluções (reivindicadas pelos moradores ou apresentadas pelas autoridades) nas áreas de educação, segurança, trabalho, saúde, habitação, saneamento, transportes, lazer, esportes e cultura. (2006, p. 7).
A Rede Globo de Televisão adota este segmento jornalístico nos telejornais locais que vão ao ar por volta do meio dia. São os chamados Praça TV 1ª Edição. Este formato é recente, vem de 1998, quando a emissora reforçou a prática do jornalismo comunitário, segundo o site Memória Globo.
A TV Globo já tinha uma tradição de jornalismo comunitário que vinha desde 1966, quando cobriu as enchentes no Rio de Janeiro. Naquela época, a emissora mostrou sua preocupação em relação às questões da comunidade, valorizando o papel do jornalismo na prestação de serviços. Na década de 1970, foi criado o Bom Dia São Paulo e, no início da década de 1980, outros programas especialmente voltados para os problemas locais: o Globo Cidade e os Praças-TV (RJ-TV, SP-TV, NE-TV, MG-TV e DF-TV). Mas, com a chegada de Evandro Carlos de Andrade à direção da CGJ, essa tendência foi reforçada. A grande novidade foi o formato dos noticiários, que passaram a ser mais profundos nas investigações e mais incisivos nas denúncias e nas cobranças às autoridades públicas. (2009).
Jornalismo Comunitário dá notoriedade à emissora e ao programa perante o grande público. Mas, mais do que pontos de audiência, o jornalismo comunitário procura criar laços de cumplicidade com o telespectador, já que as comunidades se reconhecem naquelas pessoas da televisão, na matéria veiculada.
Este braço do jornalismo é a contramão do monólogo televisivo, tão criticado pelo jornalista Eugênio Bucci em artigo publicado no site da ONG TVer:
Não há um outro veículo que a conteste, ou sequer que a relativize para o público mais amplo, Ela (a televisão) dá a primeira e a última palavra e, mais que isso, a primeira e a última imagem sobre todos os assuntos. Nesse monólogo audiovisual, o telespectador é o último a ser consultado e o primeiro a ser ofendido, desrespeitado, ultrajado. (...) Quando falo em direitos do telespectador estou falando, para começar, em deixar de pensá-lo e de tratá-lo como se ele fosse um receptor passivo. Estou falando em pensá-lo como um cidadão, extraindo daí as conseqüências que trarão impactos na tela da TV. Não é difícil ver que, na prática, o telespectador é ignorado nesse sentido.
2.1 Jornalismo Comunitário x Jornalismo Sensacionalista
O jornalismo Comunitário não trata de explorar a desgraça alheia de um cidadão isolado. As reportagens tratam de problemas que influenciam no cotidiano de várias pessoas ao mesmo tempo. É a notícia pela relevância à comunidade.
Exemplos não faltam nos telejornais locais. Em julho de 2009, o Jornal da Pajuçara Noite, da TV Pajuçara, mostrou que os novos moradores do Conjunto Cidade Sorriso enfrentavam um problema já previsto: A dificuldade de matricular as crianças em escolas públicas da região do Benedito Bentes. Os moradores, vindos de comunidades carentes da orla lagunar e da Cidade de Lona, no conjunto Eustáquio Gomes, não tinham como pagar transporte para que as crianças fossem até a escola, tampouco conseguiram transferir a matrícula dos filhos para instituições do bairro. Como resultado, os pais corriam o risco de perder o benefício do programa Bolsa Família, do governo Federal, que, na maioria dos casos, é a principal fonte de renda da casa. Depois da reportagem veiculada, a prefeitura conseguiu ônibus para transportar as crianças até as instituições de ensino e fazer o trajeto de volta para casa. Os pais não perderam o benefício.
Outro exemplo bem sucedido no quesito Jornalismo Comunitário, na TV Pajuçara, foi o fechamento do Posto de Saúde da Grota do Arroz, também em julho. O local estava sem condições estruturais para atender a população. As paredes apresentavam grandes rachaduras e, segundo os moradores, chegavam a dar choque em dias de chuva. O prédio estava alugado há 13 anos pela prefeitura e nunca havia passado por uma reforma estrutural. A denúncia chegou à redação do jornal por um telespectador. As soluções foram tomadas um dia após a veiculação da reportagem.
Já o jornalismo sensacionalista é descrito abaixo por Delton Unglaub, no artigo O que é sensacionalismo?, publicado no site Canal da Imprensa:
Fazer apelo a reações mais baseadas na emoção do que na razão, trazendo sentimentos primários à tona, simplificando polêmicas em vez de fornecer elementos que permitam pensar, compreender, formar opinião. E, neste contexto, não interessa só aquilo que o veículo diz, mas também o modo como se diz. É claro que a mídia deve ser investigativa, denunciante de injustiças. Este é seu principal papel na sociedade, mas precisa ser exercido com responsabilidade, visando as conseqüências que erros de informação podem causar. (acessado em 2009).
Sensacionalismo é o que rotineiramente acontece com programas policiais. As matérias de apelo ocupam boa parte do espelho desses programas. Foi o que aconteceu com a matéria sobre um homem, identificado apenas por Severino, um lanterneiro que estava doente e precisava de tratamento particular, veiculada do programa Fique Alerta, também da TV Pajuçara, em setembro deste ano.
A reportagem começa com uma foto do lanterneiro, pendurada na parede, com sua esposa, sorrindo. O repórter diz que, ao contrário do retrato, a realidade de Severino, há um ano, não era mais de alegria. Depois, começa a relatar o caso do homem de 38 anos que teve problemas nos ossos da bacia e estava debilitado, em uma cama, sem andar.
Antes de chegar à imagem deplorável do homem à cama, a reportagem mostra a esposa chorando e a família com aparência triste. O repórter chega ao lado de Severino, deitado sobre a cama, senta ao lado do enfermo. Este, por sua vez, lamenta a própria situação, dizendo que tinha vontade de trabalhar, mas que era obrigado a ficar em cima de uma cama.
Durante quase 4 minutos a história e desenrolada frente à câmera, mostrando que Severino precisa de tratamento particular, ao custo de R$ 3.500,00, com um oncologista e um ortopedista. A reportagem termina sem uma solução para os problemas de Severino. Até o fechamento desta pesquisa, o homem continuava na mesma situação.
Mostrar e cobrar soluções para casos como o drama econômico de várias famílias de uma comunidade ou de um posto de saúde sem estrutura que atende a um grande grupo de pessoas é o que caracteriza o jornalismo comunitário. O caso de Severino também gera comoção e imagens impactantes e pode até sensibilizar um ou outro telespectador, mas o drama dele é algo individual. Não é vivido por toda uma comunidade. Isto, portanto, caracteriza o jornalismo sensacionalista.
2.2 Liberdade de Imprensa x Liberdade de Empresa
Os profissionais da imprensa esbarram num problema que independe diretamente de sua visão pessoal ou profissional: As intervenções políticas e comerciais em seus trabalhos. Contrariando o Código de Ética do Jornalista Brasileiro, que diz, no artigo 2º, que “os jornalistas não podem admitir que ele (o acesso à informação) seja impedido por nenhum tipo de interesse” (2007), não raramente, em redações do mundo inteiro, uma sugestão de pauta relevante à sociedade não pode ser levada à frente por questões comerciais ou políticas relacionadas aos donos dos veículos. A liberdade de imprensa, neste caso, perde lugar para o que se convencionou chamar de Liberdade de Empresa. Venâncio de Lima, em artigo publicado no site Observatório da Imprensa, em 06/09/2005 diz:
Não é segredo para ninguém que a indústria das comunicações, apesar de crises financeiras localizadas, transformou-se num dos principais negócios das últimas décadas, e exemplo de concentração da propriedade no mundo globalizado. Reduzida a alguns megagrupos privados, tendem cada vez mais a controlar o que vemos, ouvimos e lemos. Basta olhar ao redor: uns poucos grupos familiares-empresariais, alguns associados a conglomerados multinacionais, praticamente controlam todo o fluxo das comunicações no Brasil. (2005).
Nos bastidores do jornalismo, é comum ouvir que alguma matéria relevante não foi veiculada por causa dos vínculos políticos entre os donos do veículo e autoridades competentes para resolver aquela questão. A prática é repugnada por Eugênio Bucci, em A Imprensa e o Dever da Liberdade.
Os jornalistas devem recusar qualquer vínculo, direto ou indireto, com instituições, causas ou interesses comerciais que possa acarretar – ou dar a impressão de que venha a acarretar – a captura do modo como vêem, relatam e se relacionam com os fatos e as idéias que estão encarregados de cobrir. (2009).
Caso clássico da influência política foi a posição tomada pela Rede Globo de Televisão com relação ao movimento Diretas Já, em 1984. O jornalista Clovis Rossi lembra o fato, em Vale A Pena Ser Jornalista?:
Durante o primeiro semestre de 1984, todo o Brasil foi sacudido pela campanha chamada de ‘diretas-já’, pedindo o imediato restabelecimento das eleições diretas para a Presidência da República, suprimidas pelo regime militar imposto em 1964. Num primeiro momento, a Rede Globo de Televisão – principal veículo de comunicação do país – foi contra a campanha. Era seu direito fixar tal posição. Mas ela ultrapassou claramente a fronteira entre opinião e informação, ao tentar fazer passar a seus telespectadores que o primeiro grande comício pelas diretas-já em São Paulo (25.01.1984) fora apenas uma manifestação a mais dentro das comemorações ao aniversário da cidade, que transcorre justamente no dia 25 de janeiro (1986, p. 9).
Como se vê através do depoimento do jornalista, o Jornal Nacional, que até hoje é o principal telejornal do país, reduziu a importância e o impacto que poderia ser causado pela notícia de que mais de duzentas mil pessoas estavam nas ruas, reivindicando por democracia. Tudo isso, levado pelo posicionamento político adotado pela Rede Globo de Televisão.
Ainda falando sobre o Jornal Nacional, anos mais tarde, em 1989, ele também foi criticado por sua posição política tendenciosa, ao editar o debate presidencial, dias antes das eleições, favorecendo o candidato Fernando Collor de Melo, que saiu vitorioso.
É certo que os vínculos são essenciais para que os emissoras de televisão, jornais impressos ou quaisquer veículos de comunicação possam existir, vista a receita gerada por parcerias entre as empresas e a outra parte. Tal realidade reitera a força que o telejornalismo exerce sobre a comunidade, como diz Juvenal Zanchetta Junior, em Imprensa Escrita e Telejornal: “A imprensa é mais poderosa que o governo, sendo capaz de interferir na vida de toda uma comunidade” (2004, p. 17).
O que se critica é como esses vínculos interferem no conteúdo a ser publicado por veículos. O Código de Ética dos Jornalistas Brasileiros, em seu artigo 4º continua a repugnar a intervenção comercial e política no trabalho dos jornalistas, quando diz que “o compromisso fundamental do jornalista é com a verdade no relato dos fatos, razão pela qual ele deve pautar seu trabalho pela precisa apuração e pela sua correta divulgação”.
Mais adiante, no artigo 6º, inciso VII, o Código dita que é dever do jornalista, “combater e denunciar todas as formas de corrupção, em especial quando exercidas com o objetivo de controlar a informação” e, ainda, no inciso XIII do mesmo artigo: “denunciar as práticas de assédio moral no trabalho às autoridades e, quando for o caso, à comissão de ética competente”.

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